Quem são os novos imortais da Academia Brasileira Letras?

Quando a Academia Brasileira de Letras foi fundada em 1897, o país ainda buscava construir uma imagem de si mesmo. A República era jovem, o Estado carecia de identidade e o intelectual, herdeiro das elites imperiais, via na palavra o instrumento supremo de poder e distinção. A ABL nasceu nesse ambiente como um templo da eloquência e da cultura letrada, destinada a reunir os homens e mulheres que, pela escrita, dariam forma espiritual ao Brasil.

Mais de um século depois, a instituição continua sendo um espelho do país, mas seu reflexo mudou. O perfil dos imortais, outrora formado por juristas, médicos e filólogos, passou por uma metamorfose silenciosa e profunda. A Academia que começou como reduto da elite bacharelesca é hoje habitada por jornalistas, ensaístas, filósofos, artistas, professores e escritores de múltiplas linguagens. O poder cultural se democratizou, e a ABL acompanhou, ainda que discretamente, essa mutação do espírito brasileiro.

A era dos bacharéis e dos médicos

Nas primeiras décadas, o predomínio era absoluto dos advogados e médicos, as duas profissões mais prestigiosas do Império e da Primeira República. O bacharel em Direito era o guardião da retórica e do pensamento público; o médico, o símbolo do racionalismo científico e do humanismo prático.

Rui Barbosa, Clóvis Beviláqua, Joaquim Nabuco e Pedro Lessa representavam o tipo clássico do intelectual-jurista, cuja formação literária nascia do domínio da língua e da oratória. Do lado científico, nomes como Afrânio Peixoto, Miguel Couto e, mais tarde, Guimarães Rosa e Pedro Nava mostravam que o médico também podia ser poeta, romancista e memorialista.

Nessa fase, a ABL funcionava como uma espécie de parlamento das letras, onde se conciliavam o direito, a ciência e o estilo. O escritor era antes de tudo um homem público, formado na universidade, na tribuna e na medicina social.

A virada modernista e o novo humanismo

Com a Revolução de 1930 e o avanço das ideias modernistas, o Brasil urbano e industrializado exigia outro tipo de intelectual. O escritor começou a ocupar o lugar do tribuno, e o crítico literário substituiu o orador. As universidades criadas nas décadas de 1930 e 1940 formaram uma nova geração de professores e pesquisadores, e a ABL, ainda que lentamente, abriu suas portas para esses novos saberes.

É o período em que surgem nomes como Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Afonso Arinos e Antônio Houaiss, intelectuais de perfil humanista e interdisciplinar que transitavam entre sociologia, literatura e filosofia. A palavra escrita deixa o púlpito jurídico e ganha o espaço do livro e do jornal.

O Direito e a Medicina, que dominavam a composição inicial da Academia, começam a perder terreno para as Letras e a Filosofia. O ensaio substitui a sentença, e a análise social toma o lugar da dissecação clínica. A cultura brasileira, que antes se narrava pela lei ou pela cura, passa a se compreender pela arte, pela história e pela crítica.

O século do professor e do jornalista.

Do final do século XX até hoje, a transformação se completa. A ABL passa a refletir uma sociedade midiática e acadêmica, em que o jornalismo cultural, a crítica literária e a docência universitária são as novas matrizes do prestígio intelectual.

Mais de um quarto dos imortais atuais vem da Comunicação e do Jornalismo, incluindo nomes como, Merval Pereira, Ignácio de Loyola Brandão, Antônio Torres, Mirian Leitão, Ferreira Gullar(in memoriam), Carlos Heitor Cony (in memoriam) e Nélida Piñon (in memoriam) Muitos deles são autodidatas, mas construíram reputações sólidas pela escrita pública, pela reportagem e pela crônica, os gêneros mais próximos do leitor contemporâneo.

Ao lado dos jornalistas, os professores e pesquisadores de Letras consolidaram a maioria numérica. Treze cadeiras são ocupadas por especialistas em literatura e linguagem, como Marco Lucchesi, Antônio Carlos Secchin, Godofredo de Oliveira Neto, Domício Proença Filho, Ricardo Cavaliere, Ana Maria Machado, Evanildo Bechara (in memoriam),Heloisa Buarque de Hollanda (in memoriam), e Ana Maria Gonçalves ( primeira mulher negra eleita para ABL ) e Milton Hatoum que representam diferentes vertentes da literatura brasileira contemporânea.

É um fenômeno revelador: a ABL tornou-se, de fato, uma casa das Humanidades. Letras, Comunicação, Filosofia, História, Economia e Ciências Sociais somam mais de dois terços de seus membros atuais, relegando o Direito e a Medicina a um papel simbólico e minoritário.

A chegada dos economistas, filósofos e artistas

Nos últimos anos, a Academia deu um passo além e começou a incorporar intelectuais e criadores das Ciências Humanas aplicadas e das Artes, ampliando o conceito de homem de letras para o de intérprete do país.

Três economistas se destacam: Roberto Campos (in memoriam), Edmar Bacha e Eduardo Giannetti, todos autores de livros que combinam análise econômica, filosofia e ensaísmo literário. O economista, que antes se limitava ao cálculo e à teoria, passou a ocupar o lugar do ensaísta que pensa o Brasil.

A Filosofia ganhou novas vozes com pensadores como Ailton Krenak, cujo pensamento ancestral e ecológico aproxima a reflexão indígena da sabedoria universal. Sua eleição marca um momento histórico: pela primeira vez, a filosofia nativa e oral é reconhecida como forma legítima de pensamento letrado.

Na Sociologia e nas Ciências Sociais, o espaço é ocupado por nomes como Fernando Henrique Cardoso e José Murilo de Carvalho, pensadores da cidadania e da história política.

Mas o fenômeno mais simbólico é a entrada de artistas da palavra: Fernanda Montenegro, atriz e intérprete de textos que moldaram a cultura nacional, e Gilberto Gil, músico, poeta e ensaísta da canção brasileira. Ambos representam a expansão do conceito de literatura, a palavra viva que se transforma em corpo, voz e música.

Com Fernanda e Gil, a ABL reconhece que o verbo literário pode também ser palavra encenada e cantada. O teatro e a canção passam a dialogar com a poesia e o romance dentro do mesmo espaço simbólico.

A metamorfose do poder cultural

O que essa transformação revela não é apenas uma mudança de currículo, mas uma mudança de poder. A palavra, que antes servia ao Direito e à Medicina, hoje serve à cultura, à arte e à consciência crítica. A ABL espelha a migração do poder cultural brasileiro da retórica jurídica para a reflexão humanista e comunicacional, e agora para o diálogo com a diversidade cultural e artística.

Os imortais de hoje são intelectuais que escrevem não apenas com a pena, mas com a voz, o gesto e a canção. O jornal, a universidade, o palco e a música substituíram a tribuna e o consultório como lugares da autoridade simbólica. É um sinal de maturidade: o poder da cultura deslocou-se do prestígio institucional para a força das ideias, das imagens e das palavras vivas.

O essencial em poucas linhas

A Academia Brasileira de Letras já foi a casa dos bacharéis e dos doutores, depois tornou-se o refúgio dos poetas e romancistas, e hoje é o espelho das humanidades e das artes brasileiras. Direito e Medicina abriram caminho, mas foi o pensamento crítico nas Letras, na Comunicação, na Filosofia, na Música e nas Ciências Sociais que consolidou o papel da ABL como guardiã da inteligência nacional.

Mais do que uma instituição, ela é o retrato da história intelectual do Brasil, um país que aprendeu, com o tempo, que a verdadeira nobreza da palavra não está na toga nem no jaleco, mas na arte de pensar, escrever, cantar e interpretar o mundo.

🔗 Link institucional

Academia Brasileira de Letras

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima