A literatura brasileira nasceu com uma vocação pública. Muito antes de ser um ofício estético, escrever era um ato político, uma forma de agir sobre o destino da nação. Essa é a tese luminosa de Nicolau Sevcenko em A Literatura como Missão – Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República, obra que devolve à palavra o seu poder moral e civilizatório.
Durante o período da Primeira República (1889–1930), o Brasil viveu uma rápida modernização urbana e técnica, mas sem a correspondente renovação espiritual. A elite republicana sonhava com o progresso, enquanto o povo seguia mergulhado na miséria e no analfabetismo. Nesse abismo social, a figura do escritor assumiu o papel de consciência pública: o homem da pena que fala em nome do país que ainda não sabe falar por si.
O escritor como intérprete da nação
Segundo Sevcenko, os intelectuais da Primeira República acreditavam exercer uma missão civilizatória. Escrever não era apenas produzir literatura, mas iluminar a consciência nacional. O autor lembra que a palavra “intelectual”, em sua acepção moderna, surge nesse contexto de engajamento social e moral. O escritor torna-se um sacerdote leigo, responsável por traduzir os dramas e esperanças da nação recém-proclamada.
A imprensa, ainda jovem, mas em franca expansão, tornou-se o púlpito dessa nova religião da palavra. O jornal substituiu o parlamento como tribuna, e o jornalista assumiu o papel de intérprete da realidade. Na ausência de universidades estruturadas e de partidos sólidos, era nas páginas dos periódicos que se travava o debate sobre o Brasil. A cultura foi o substituto da política.
A imprensa como arena da cultura
Para Sevcenko, a modernização republicana trouxe ao país uma elite letrada fascinada pela Europa e obcecada pela ideia de civilização. Mas o progresso vinha acompanhado de contradições: racismo científico, exclusão social, autoritarismo e desigualdade. Diante disso, a literatura foi convocada a reagir, e reagiu pela crítica.
A imprensa transformou-se no laboratório da consciência nacional. Ali nasciam crônicas, reportagens e romances que misturavam observação social e criação estética. Essa hibridização entre jornalismo e literatura deu origem ao que mais tarde seria chamado de jornalismo literário, um gênero que combina o rigor factual do repórter com a visão simbólica do escritor.
Autores como Euclides da Cunha, Lima Barreto e João do Rio fizeram dessa mistura um território de força criadora. Cada um, à sua maneira, encarnou o papel do intelectual missionário descrito por Sevcenko, o homem que vê, sente e escreve não apenas por si, mas pelo seu tempo.
Euclides da Cunha: a epopeia do real
Em Os Sertões, Euclides da Cunha converteu a reportagem sobre a Guerra de Canudos numa epopeia trágica da identidade brasileira. Sua narrativa combina a observação científica do engenheiro, a indignação do repórter e a visão poética do artista. É o exemplo mais poderoso do que Sevcenko chama de literatura de missão: o escritor que busca compreender o país pela dor e pela palavra.
Euclides acreditava que a ciência podia revelar a estrutura física da nação, mas só a literatura era capaz de penetrar o seu espírito. Essa fusão de saber técnico e emoção moral explica por que Os Sertões é, ao mesmo tempo, documento e obra de arte, e também um dos marcos fundadores do jornalismo literário brasileiro.
Lima Barreto: o cronista do desencanto
Se Euclides representava a fé no progresso, Lima Barreto simboliza o desencanto. Mulato, pobre, funcionário público e crítico feroz das elites, ele expôs o lado sombrio da modernidade republicana. Em suas crônicas e romances, o sonho de civilização se converte em farsa, e a cidade moderna aparece como um palco de exclusão e hipocrisia.
Lima foi o primeiro a perceber que a palavra podia ser também instrumento de resistência. Sua ironia, sua lucidez e sua dor fazem dele um verdadeiro jornalista literário, alguém que, sem abandonar o real, o transforma em espelho moral da sociedade. Como observa Sevcenko, o escritor de Triste Fim de Policarpo Quaresma revelou a falência da missão republicana, mas manteve viva a missão intelectual: denunciar a mentira com as armas da linguagem.
João do Rio: o repórter da alma urbana
Entre o sagrado e o profano da cidade moderna, surge João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto, repórter das ruas do Rio de Janeiro. Com ele, o jornalismo literário atinge uma nova dimensão estética: a crônica transforma-se em arte de observação e estilo. Em A Alma Encantadora das Ruas, o flâneur carioca capta os gestos, as vozes e as contradições da metrópole nascente.
Para Sevcenko, João do Rio representa o intelectual cosmopolita, o artista que vê no cotidiano urbano uma forma de revelação. Sua escrita mistura lirismo e reportagem, emoção e análise, prova de que a literatura pode nascer do instante e de que o jornalismo pode conter verdade poética.
A missão e o desencanto
O ideal de missão literária, tão forte na virada do século, começou a se desfazer nas décadas seguintes, à medida que o jornalismo se industrializou e a cultura se massificou. Mas a tese de Sevcenko continua atual porque revela o que há de permanente na vocação da escrita: a busca de sentido em meio ao caos.
Mesmo quando o país muda, a missão ressurge. Durante as crises do século XX, nas ditaduras e nos períodos de censura, jornalistas e escritores retomaram esse papel moral: de Graciliano Ramos a Carlos Heitor Cony, de Clarice Lispector a Eliane Brum. Todos herdeiros, em alguma medida, daquele impulso civilizatório que via na palavra a mais alta forma de poder cultural.
A herança de Nicolau Sevcenko
Nicolau Sevcenko não escreve apenas história literária. Ele refaz a genealogia do poder intelectual no Brasil. Ao ler A Literatura como Missão, percebemos que o poder cultural nasce quando o escritor toma consciência de que a palavra pode transformar o mundo. O jornal, o livro, o ensaio e a crônica tornam-se instrumentos de uma mesma vocação: educar a sensibilidade nacional.
A missão do intelectual, portanto, não é apenas criar beleza, mas salvar a linguagem do esquecimento moral. Num tempo em que a cultura se fragmenta nas redes e a informação se esgota na velocidade, essa lição é mais urgente do que nunca.
O verdadeiro jornalista literário, herdeiro de Euclides, Lima Barreto e João do Rio, é aquele que escreve com rigor, mas também com alma, que investiga os fatos, mas também os significados, que informa e ilumina ao mesmo tempo.
O essencial em poucas linhas
Ler A Literatura como Missão é compreender que a palavra pode ser poder e que o jornalismo, quando se eleva à condição de literatura, torna-se instrumento de cultura e consciência. Nicolau Sevcenko nos lembra que a missão do escritor não terminou, apenas mudou de cenário. Se ontem a arena era o jornal impresso, hoje ela é o espaço digital, mas o desafio permanece o mesmo: dar forma e sentido à vida brasileira. A literatura continua sendo missão, e o jornalismo literário é o seu novo campo de batalha.