ABL, uma instituição símbolo do poder da palavra

A Academia Brasileira de Letras é, antes de tudo, um símbolo da tradição cultural. Entre seus muros, feitos de mármore e memória, o escritor aprende que as palavras são mais antigas do que ele, e que toda frase nasce de uma linhagem. Nenhum texto se sustenta sem o peso invisível de quem o antecedeu. É nesse sentido que a ABL ensina: ser escritor é reconhecer-se herdeiro e, ao mesmo tempo, criador , alguém que escuta o eco dos mortos e transforma esse som em futuro.

Fundada em 1897, a Academia nasceu sob o signo da continuidade. Inspirada na francesa, ela buscava dar forma e permanência à literatura de um país ainda em construção. Cada cadeira, mais do que um assento simbólico, é uma linha de transmissão. Quem ali se senta recebe uma voz , não para falar em nome próprio, mas para prolongar o verbo coletivo da cultura brasileira. Assim, o escritor que contempla a ABL percebe que a palavra não é apenas instrumento de expressão, mas também um pacto de responsabilidade.

A palavra como patrimônio e destino

Ao longo de suas edições da Revista Brasileira, a ABL mostra, em silêncio, uma lição simples e poderosa: a literatura é a forma mais profunda de política da linguagem. Quando Marco Lucchesi escreve sobre “a cultura como resistência”, ou quando Antonio Carlos Secchin reflete sobre a poesia de João Cabral, o que se vê é a consciência de que a palavra molda o pensamento nacional. Não há democracia possível sem o cultivo das ideias. E não há ideias sem palavras que saibam respirar.

O escritor que lê a Revista Brasileira aprende a desconfiar da pressa e da superficialidade. Aprende que o verbo “escrever” não é um gesto imediato, mas um trabalho de escavação. Cada frase pede uma escuta. Cada palavra, um silêncio anterior. A ABL preserva o tempo da escrita, o tempo necessário para pensar o Brasil e para permitir que o texto se torne memória.

Na casa de Machado de Assis, o poder da palavra não se mede pela força do grito, mas pela precisão da frase. Machado, que foi o primeiro presidente da Academia, compreendeu que o estilo é uma ética. Escrever bem é respeitar o leitor e a própria inteligência. Por isso, cada texto publicado sob o selo da ABL guarda uma fidelidade à clareza , uma recusa à vulgaridade que a pressa do mundo impõe.

A palavra como forma de poder cultural

A palavra, quando escrita com consciência, é poder. É o instrumento mais sutil e duradouro da civilização. O poder da espada termina no gesto; o poder da palavra continua agindo mesmo depois do silêncio. Por isso, o escritor que observa a ABL aprende que o verdadeiro poder não está em dominar os outros, mas em dominar o próprio idioma. É o domínio da forma que liberta o pensamento.

A ABL também ensina que o poder cultural é uma força paciente. O escritor não muda o mundo de um dia para o outro; muda o modo como o mundo pensa. Cada crônica, poema ou ensaio é uma centelha lançada num terreno imenso. As revistas e discursos da Academia são, portanto, uma biblioteca viva — um arquivo de vozes que se revezam na tentativa de manter o país pensante.

Em tempos de ruído e superficialidade digital, a lição da ABL é um antídoto. Ela recorda que escrever é um ato de fé na permanência. A palavra impressa é um gesto contra o esquecimento. O escritor que compreende isso passa a escrever não para o algoritmo, mas para a posteridade.

A palavra como herança e como reinvenção

Ser escritor é também assumir a tarefa de reinventar o idioma que herdou. A ABL preserva, mas não fossiliza. Cada novo imortal tem o dever de renovar a tradição sem destruí-la. É assim que a língua portuguesa sobrevive: pela tensão entre o respeito e a ousadia. O escritor jovem, ao estudar as páginas da Revista Brasileira, descobre que a verdadeira originalidade não está em negar os antigos, mas em dialogar com eles.

Antonio Torres, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon e tantos outros mostraram, em suas trajetórias, que a literatura é uma forma de biografia coletiva. Cada autor é um capítulo da história da língua. A ABL, por isso, não é apenas uma instituição: é o espelho onde o escritor vê refletida a própria missão — transformar experiência em forma e emoção em pensamento.

O essencial em poucas linhas

O que a ABL ensina ao escritor é que a palavra é poder quando serve à verdade, à beleza e à consciência. Escrever é participar de uma corrente que atravessa séculos, carregando o peso e a leveza de um idioma. A Academia, com sua tradição e serenidade, lembra que o escritor é, antes de tudo, um guardião da linguagem. E que, nas mãos certas, uma frase pode ser mais revolucionária que um exército.

🌐 Para conhecer mais sobre a Academia Brasileira de Letras, acesse: https://www.academia.org.br

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