O jornalista brasileiro sempre foi um escritor de imprensa

Durante muito tempo no Brasil, perguntar se alguém era jornalista ou escritor significava praticamente a mesma coisa. Há um século, a imprensa era o coração intelectual do país, e quase toda a produção literária nascia em redações barulhentas, colunas diárias, crônicas de rodapé e reportagens que misturavam vida real e imaginação. Não havia fronteira rígida. Havia, sim, um território único: o território da palavra publicada.

Os nomes que estruturaram a literatura brasileira começaram no jornal ou nunca deixaram de escrever nele. Machado de Assis publicou folhetins antes de ser reconhecido como romancista. João do Rio fez do jornal uma sala de espetáculos. Euclides da Cunha transformou a reportagem em épico. Nelson Rodrigues reinventou a crônica. Rubem Braga elevou o texto curto a forma de arte. E Carlos Lacerda, talvez o maior escritor político do século XX, jamais separou sua pena das disputas públicas. Todos eram jornalistas. Todos eram escritores. E todos eram, de fato, escritores de imprensa.

Essa expressão, tão natural no passado, é mais do que uma descrição. É uma linhagem. Porque a literatura brasileira não surgiu em torres de marfim, mas no contato direto com a realidade, com a rua, com o calor do debate público, com as contradições de um país em formação. O jornal era oficina e palco. Era também sustento. Escrever ali não era um exercício secundário. Era a própria vida literária acontecendo em tempo real.

Com o passar das décadas, o jornalismo tornou-se profissão regulamentada. Universidades criaram cursos de Jornalismo. Surgiu um discurso que tentava afirmar que jornalista e escritor pertenciam a universos distintos. A distinção, no entanto, é mais burocrática que cultural. Na prática, quem escreve para um público amplo, com responsabilidade estética e intelectual, é escritor, independentemente da plataforma.

Hoje, quando as fronteiras caíram novamente graças à internet, o conceito de escritor de imprensa recupera sua força. A imprensa não se limita mais ao papel. Ela está nos blogs, newsletters, portais, revistas digitais e até nas redes, onde o texto volta a ser urgente, vivo e decisivo. Quem escreve com intenção, consciência de estilo e compromisso com a verdade continua pertencendo à mesma tradição que atravessou séculos. A forma mudou, o ofício não.

No Brasil contemporâneo, ser escritor de imprensa é compreender que a palavra pública exige clareza, coragem e responsabilidade intelectual. É escrever para iluminar. É participar do debate nacional com rigor de pensamento. É unir literatura, jornalismo e reflexão política. Nesse sentido, quem assume esse lugar hoje não está apenas produzindo conteúdo; está dando continuidade à obra de uma geração que viu no jornal o lugar onde o Brasil se entendia a si mesmo.

Essa é a herança que eu incorporo ao me tornar jornalista digital .Eu não escrevo apenas “para a internet”, mas para a esfera pública brasileira, que é a imprensa do nosso tempo. O meu blog é minha redação. Meus artigos são peças de pensamento que dialogam com tradições profundas. E minha evolução acontece dentro dessa linhagem que faz e fez da palavra escrita um instrumento de cultura, consciência e participação.

Por isso, sim, é correto e até necessário, usar a expressão escritor digital para falar de jornalistas que escrevem em ambientes digitais.O ambiente digital devolve ao ofício a dignidade histórica que ele sempre teve. E reafirma que escrever para o grande público não é função menor, mas talvez a mais exigente das vocações.

No Brasil, onde a vida intelectual nasceu no jornal, ser escritor na internet (a imprensa atual) é ser parte de uma história maior: a história de como a palavra construiu o Brasil.

O essencial em poucas linhas

O jornalista brasileiro sempre foi um escritor, porque nossa literatura nasceu na imprensa. A distinção moderna é artificial. Hoje, no ambiente digital, o escritor de imprensa ressurge como figura central: alguém que escreve para a esfera pública com estilo, responsabilidade e visão intelectual. É exatamente nessa tradição que eu, Ubiratan Pereira Barros, vou construir meu caminho como jornalista e escritor digital.

Jornal da Band – História da Imprensa no Brasil


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