Pesquisa revela onde moravam os imortais da ABL

O Rio de Janeiro é mais do que cenário. É território de pensamento, palco onde os imortais da Academia Brasileira de Letras viveram suas vidas, escreveram seus livros e observaram o Brasil. Suas casas, ruas e edifícios formam uma cartografia secreta da literatura nacional, revelada pela pesquisa conduzida pela ABL entre 2019 e 2021 .

A investigação, liderada por Merval Pereira, Alberto Venancio Filho e Arno Wehling, com pesquisa de Anselmo Maciel, vasculhou anuários desde 1935, cruzou documentos internos e percorreu quase sete centenas de páginas de endereços históricos. A meta era simples e monumental ao mesmo tempo: localizar as residências de todos os acadêmicos desde 1897, fixar placas comemorativas e devolver ao Rio parte de sua memória cultural.

Marco Lucchesi, presidente da instituição, destacou na apresentação do livro o drama urbano da cidade. O século XX apagou a casa de Machado, o Palácio Monroe, o Morro do Castelo, igrejas, edifícios e ruas inteiras. A cidade perdeu pedaços de si mesma, mas resiste nos lugares onde a literatura viveu. Localizar essas casas é resgatar o território da cultura.

Uma pesquisa minuciosa

O trabalho começou com a digitalização integral dos anuários da Academia, passando pelos três volumes das listagens de endereços organizadas internamente ao longo de décadas. Como muitos imortais mudaram de casa várias vezes, adotou-se um critério: considerar como residência oficial aquela em que o acadêmico permaneceu por mais tempo.

Depois vieram as visitas in loco, a identificação de fachadas, nomes antigos de ruas, bairros que mudaram de escala e edifícios que simplesmente desapareceram. Essa arqueologia literária resultou no mapa mais detalhado já produzido sobre a vida residencial da ABL.

Copacabana, o bairro de 28 acadêmicos

Copacabana aparece como o centro gravitacional da vida intelectual da Academia. Foram exatamente 28 acadêmicos vivendo em suas ruas, avenidas e edifícios. Entre eles, nomes de peso como Evandro Lins e Silva, Vianna Moog, Orígenes Lessa, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Gustavo Barroso, Roberto Campos, Jorge Amado e Zélia Gattai, estes últimos dividindo o mesmo endereço na Rua Rodolfo Dantas.

É o bairro mais internacional, mais vivido, mais movimentado. A convivência entre boemia, trabalho intelectual, jornalismo, política e literatura criou ali uma atmosfera singular. Copacabana foi casa de romancistas, sociólogos, economistas, poetas e memorialistas, uma verdadeira polis da inteligência brasileira.

Se incluirmos o Leme, vizinho colado à orla e que recebeu outros 3 acadêmicos, o número total sobe para 31 imortais residentes na região Copacabana–Leme.

Flamengo e Praia do Flamengo somam 22 endereços dos acadêmicos da ABL.

Flamengo e sua orla formam o segundo maior conjunto de residências de imortais. Pelas ruas internas viveram 16 acadêmicos, enquanto na Praia do Flamengo residiram outros 6, totalizando 22 intelectuais na região.

É uma área marcada por sobrados antigos, edifícios modernos dos anos 1930 e 1940, e uma história política rica. Ali moraram João Neves da Fontoura, Herberto Sales, Odylo Costa Filho, Osvaldo Orico, Alcântara Machado e Getúlio Vargas. Na Praia do Flamengo viveram Macedo Soares, Eduardo Portella, Cláudio de Sousa, Antonio Austregésilo, João Cabral de Melo Neto e Alberto de Faria.

O Flamengo sempre misturou ares aristocráticos, urbanidade sofisticada e vida cultural intensa, servindo de ponte simbólica entre a tradição e a modernidade.

Botafogo e Praia de Botafogo totalizam 13 endereços dos acadêmicos

Botafogo recebeu 7 acadêmicos em suas ruas internas e mais 6 na Praia de Botafogo, totalizando 13 residentes. André Maurois dizia que certas cidades são “lugares em que o espírito se sente em casa”; Botafogo é um desses lugares.

Em suas ruas viviam críticos, professores e memorialistas como Américo Jacobina Lacombe, Mário de Alencar, Afonso Arinos de Melo Franco, Viriato Correia e Rodrigo Octavio Filho. Na Praia de Botafogo estiveram Augusto Meyer, Francisco de Assis Barbosa, Álvaro Lins, Otávio de Faria, Aurélio Buarque de Holanda e Miguel Couto.

A mistura entre tradição, comércio, vida literária e proximidade com centros culturais criou ali um ambiente de convivência constante entre intelectuais.

Laranjeiras: 6 acadêmicos em um bairro de elegância serena

Laranjeiras acolheu 6 imortais. Suas ruas, muitas vezes cercadas de verde e de casas históricas, atraíram figuras como Raymundo Faoro, Marques Rebelo, Fernando de Azevedo, Marcos Almir Madeira, Gilberto Amado e Fernando Magalhães.

É um bairro que sempre pareceu existir à parte da pressa do Rio. Suas ladeiras, praças e edifícios preservam uma atmosfera de introspecção e refinamento — terreno fértil para ensaístas, historiadores e líderes intelectuais.

Cosme Velho: 3 acadêmicos no bairro da contemplação

O Cosme Velho, refúgio de silêncio e natureza às margens da cidade, recebeu 3 imortais. Austregésilo de Athayde, Antônio da Silva Melo e Roberto Marinho encontraram ali o ambiente adequado para escrita, reflexão, vida familiar e atividade política e editorial.

É um bairro que sugere recolhimento, mas também profundidade. Muitos dos debates mais discretos e decisivos da vida cultural brasileira passaram por suas casas.

A cidade como biografia da ABL

O mapa final revela uma verdade simples: a geografia dos acadêmicos é uma espécie de biografia coletiva da literatura brasileira. Copacabana acolheu a modernidade e a mistura de vozes; Flamengo preservou a elegância intelectual; Botafogo foi o bairro do pensamento crítico e das memórias; Laranjeiras e Cosme Velho guardaram a introspecção e o silêncio criativo.

Cada bairro representa um capítulo da história cultural do país. Cada endereço é um fragmento da memória literária nacional. Cada placa colocada hoje nas fachadas devolve ao Rio um pedaço da alma que ele nunca deixou de ter.

O essencial em poucas linhas

Revelar onde moravam os acadêmicos da ABL é iluminar a própria história do Brasil intelectual. As casas, edifícios e ruas habitados pelos imortais formam uma cartografia cultural única, que resgata o Rio como cidade de escritores, pensadores, professores e diplomatas. Ao recuperar esses endereços, a ABL devolve ao país um mapa vivo de sua memória literária.

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