Copacabana, o bairro preferido dos escritores da ABL

Copacabana acolheu 30 escritores da ABL e foi palco da modernidade brasileira. Dos acontecimentos históricos, como os 18 do Forte de Copacabana até a Bossa Nova,o bairro expressou sua vocação para o protagonismo nacional.

Copacabana ao longo do século 20, tornou-se o maior laboratório urbano, cultural e simbólico do Rio de Janeiro e, por consequência, do Brasil. Não por acaso, trinta acadêmicos da Academia Brasileira de Letras escolheram o bairro para morar e realizar seu trabalho intelectual.

Esse dado não é apenas estatístico. Ele revela que a intelectualidade brasileira deixou os espaços protegidos do recolhimento clássico e passou a conviver com a exposição permanente, com a velocidade, com a multidão e com o ruído da modernidade.

Copacabana na virada do século passado.

A ascensão de Copacabana coincide com a transformação do Rio de Janeiro numa metrópole moderna. A verticalização, a vida à beira-mar, o fluxo incessante de pessoas e ideias fizeram do bairro um território de experiência radical.

Foi nesse ambiente que viveram e pensaram nomes como Evandro Lins e Silva, Antonio Olinto, Orígenes Lessa, Adelmar Tavares, Deolindo Couto, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Pedro Calmon, Gustavo Barroso e Múcio Leão. Copacabana não oferecia silêncio, nem distância. Oferecia realidade nua e crua, isso exigia da inteligência, adaptação, ironia, flexibilidade e resistência interior.

A Avenida Atlântica e o peso da história

Dentro desse bairro já intenso, a Avenida Atlântica concentrou uma dimensão ainda mais simbólica. Três acadêmicos da ABL moraram de frente para o mar, entre eles Vianna Moog.

A Atlântica não é apenas um endereço. Ela carrega o peso histórico da Revolta dos 18 do Forte, ocorrida no Forte de Copacabana, episódio que marcou definitivamente a relação entre política, Exército e destino nacional.Morar na Atlântica significa viver no centro visível da história, onde poder e vida cultural se cruzam diariamente.

Copacabana Palace

O escritor Carlos Drummond de Andrade morou e viveu em Copacabana. Poeta maior da língua portuguesa, cuja obra captou como poucas o sentimento de deslocamento e solidão do homem moderno.

A vocação de Copacabana para o encontro com o mundo também se materializou em um de seus símbolos mais duradouros: o Copacabana Palace. Localizado no coração do bairro, o hotel tornou-se, ao longo do século XX, provavelmente o hotel mais famoso do Brasil, não apenas como espaço de hospedagem, mas como palco da vida cultural, política e internacional do país.

Sua importância é tamanha que o jornalista Ricardo Boechat dedicou um livro inteiro à história do hotel, tratando-o como um verdadeiro personagem da vida brasileira. O Copacabana Palace não foi apenas cenário: foi testemunha privilegiada das transformações do Rio e do Brasil diante do mundo.

Por seus salões passaram celebridades internacionais, artistas e figuras centrais da cultura global. Nomes como Madonna e outros artistas de Hollywood hospedaram-se ali, reforçando o papel de Copacabana como porta de entrada simbólica do Brasil moderno no circuito internacional.

Nesse sentido, o Copacabana Palace sintetiza uma dimensão essencial do bairro: Copacabana não foi apenas lugar de produção intelectual e artística, mas também espaço de reconhecimento, circulação e visibilidade global. Pensar, ali, significava pensar sob os olhos do mundo.

Copacabana testou muita coisa

Por fim, mas não em último lugar é preciso ressaltar que diferentemente de outros bairros marcados pela estabilidade clássica, Copacabana foi o bairro do teste. Teste de convivência, de tolerância, de criação e de sobrevivência intelectual em meio à pressão constante da vida urbana.

Talvez por isso tenha atraído tantos nomes da ABL, como Olegário Mariano, Álvaro Moreyra, Adonias Filho, Luís Viana Filho, Jorge Amado, Cyro dos Anjos, Sábato Magaldi, Oscar Dias Corrêa, Cassiano Ricardo, Ferreira Gullar e Evaristo de Morais Filho.

Copacabana mostrou que a intelectualidade brasileira não se formou apenas no recolhimento, mas também no atrito com o mundo!

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