O que se perdeu quando a universidade deixou de formar a inteligência

A crise da universidade não é financeira, administrativa nem tecnológica. Ela é intelectual.

A crise da universidade não é financeira, administrativa nem tecnológica. Ela é intelectual. A instituição que nasceu para formar a inteligência passou a operar como fábrica de certificados, confundindo ensino superior com treinamento profissional. O sintoma mais visível dessa degeneração é a dificuldade generalizada de julgar: há informação em excesso, mas compreensão em falta.

Formar a inteligência não é o mesmo que transmitir conteúdos. Trata-se de educar a atenção, ordenar a imaginação e amadurecer o juízo. Uma universidade pode oferecer bibliotecas, laboratórios e currículos sofisticados e, ainda assim, fracassar completamente se não ensinar o aluno a pensar com rigor.

A distinção central que se perdeu é entre formação intelectual e capacitação técnica. A técnica responde ao “como fazer”; a formação responde ao “o que vale a pena fazer” e “por quê”. Quando essa hierarquia se inverte, o conhecimento deixa de orientar a ação e passa apenas a servi-la.

O aprofundamento do problema revela um fenômeno mais grave: a especialização precoce. O estudante é empurrado para nichos cada vez mais estreitos antes de ter uma visão integrada do mundo. Aprende procedimentos, mas não princípios; executa tarefas, mas não compreende o sentido do que faz.

O erro comum é imaginar que pensamento crítico surge espontaneamente do acúmulo de dados ou do debate de opiniões. O resultado é a proliferação de discursos “críticos” que apenas repetem modas ideológicas, sem exame real da realidade.

O critério correto é simples e exigente: uma universidade cumpre sua função quando forma pessoas capazes de ler textos difíceis, sustentar raciocínios longos, distinguir o essencial do acessório e revisar as próprias crenças diante dos fatos. Sem isso, não há ensino superior — apenas adestramento.

As implicações culturais desse desvio são profundas. Profissionais tecnicamente competentes tornam-se intelectualmente dependentes; sociedades eficientes perdem discernimento; decisões complexas passam a ser tomadas com base em slogans.

Em síntese, ao abandonar a formação da inteligência, a universidade abdica de sua missão civilizacional e entrega à sociedade indivíduos funcionais, porém frágeis no juízo.

Fechando o arco argumentativo

Quando a universidade deixa de formar a inteligência, a curto prazo ganha produtividade; a longo prazo, perde consciência.

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