Armadilhas semânticas na política

A política brasileira tornou-se um território onde palavras bonitas circulam com enorme facilidade. Fala-se em “defesa da democracia”, “justiça social”, “proteção institucional”, “inclusão”, “responsabilidade social”. O problema não está nos termos em si, mas no uso que se faz deles.

A política brasileira tornou-se um território onde palavras bonitas circulam com enorme facilidade. Fala-se em “defesa da democracia”, “justiça social”, “proteção institucional”, “inclusão”, “responsabilidade social”. O problema não está nos termos em si, mas no uso que se faz deles. O discurso público passou a funcionar como blindagem simbólica, impedindo que o cidadão examine a estrutura real de poder que está sendo consolidada.

A primeira distinção necessária é metodológica: discurso político não é descrição neutra da realidade. É instrumento de mobilização. Toda proposta deve ser analisada não pelo que afirma, mas pelo tipo de obediência que busca produzir. Sem essa distinção, o debate se transforma em disputa de slogans, e não em exame das relações concretas de poder.

Quando uma medida é apresentada como “proteção” ou “regulação necessária”, a pergunta decisiva não é se a intenção declarada parece nobre, mas quem ganha capacidade concreta de ação após sua implementação. A estrutura política se mede pelo deslocamento efetivo de poder, não pela qualidade retórica da justificativa. O nome pode ser virtuoso; o efeito pode ser concentrador.

O erro comum do debate público brasileiro é aceitar a linguagem como se fosse realidade. Se uma política se chama “defesa da democracia”, criticar a medida passa a ser interpretado como hostilidade à própria democracia. Essa inversão cria constrangimento psicológico e inibe o juízo crítico. A palavra torna-se um mecanismo de persuasão moral, não um meio de esclarecimento.

Aplicando a tríade da obediência : medo, benefício e persuasão, o quadro se torna mais claro. O medo aparece na ameaça difusa de marginalização social ou institucional. O benefício surge na distribuição seletiva de vantagens e incentivos. A persuasão opera por meio da narrativa dominante, repetida pela mídia e pelos formadores de opinião. A combinação dessas três forças sustenta a estabilidade política muito mais do que qualquer texto legal.

O resultado é um deslocamento silencioso: a obediência deixa de estar vinculada exclusivamente à lei escrita e passa a responder à narrativa dominante. A Constituição pode permanecer formalmente intacta enquanto o ambiente simbólico já condiciona comportamentos e decisões. O cidadão obedece menos ao texto jurídico e mais ao consenso fabricado.

Essa dinâmica explica por que determinadas medidas, que ampliam controle ou restringem alternativas, são defendidas como avanços civilizatórios. A dissociação entre discurso e ação não é exceção; tornou-se procedimento. Sem análise estrutural, o debate público permanece superficial, girando em torno de palavras que ocultam mais do que revelam.

Formação intelectual significa precisamente isso: recusar a literalidade automática do discurso e examinar a realidade concreta dos efeitos. Em política, a maturidade começa quando o cidadão pergunta não apenas “o que está sendo dito?”, mas “quem está ganhando poder com isso?”. A linguagem pode ser nobre; o poder, nunca é neutro.

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