A cidadania costuma ser pensada apenas como um conjunto de direitos políticos e deveres legais, mas essa visão é superficial. Antes de qualquer participação efetiva na vida pública, existe uma condição mais básica e mais exigente: a capacidade de compreender, formular e julgar discursos. Sem domínio da língua, o indivíduo permanece excluído do espaço simbólico onde as decisões políticas e culturais realmente se formam.
Para Olavo de Carvalho, a chamada alta cultura não era um adorno elitista nem um repertório decorativo. Ela consistia, essencialmente, no domínio consciente da língua e da linguagem como instrumentos do pensamento. Quem não domina a língua não domina o próprio raciocínio, e quem não domina o raciocínio torna-se presa fácil de slogans, fórmulas vazias e manipulações retóricas.
É nesse ponto que a leitura dos clássicos assume um papel decisivo. Olavo insistia que grandes escritores não são importantes apenas pelo conteúdo do que dizem, mas pela forma como organizam a experiência humana em palavras. Ler bons autores é aprender, por imitação interior, a pensar com clareza, precisão e hierarquia. A língua deixa de ser apenas meio de comunicação e passa a ser forma de consciência.
O erro moderno foi reduzir o ensino da língua a regras gramaticais fragmentadas ou a habilidades funcionais mínimas. Aprende-se a escrever para passar em provas, preencher formulários ou responder exames, mas não para compreender textos complexos nem para sustentar um juízo próprio. Essa redução empobrece a linguagem e, com ela, empobrece a vida intelectual e cívica.
Quando a linguagem se degrada, a política também se degrada. Discursos simplificados, palavras ocas e conceitos mal definidos produzem cidadãos incapazes de distinguir argumento de propaganda, ideia de opinião, verdade de conveniência. Sem proficiência linguística, a participação política transforma-se em repetição automática de discursos alheios.
Olavo chamava atenção para o fato de que a verdadeira educação linguística não se dá por atalhos. Ela exige convivência prolongada com textos densos, com estilos rigorosos e com visões de mundo articuladas. Os grandes escritores ensinam, silenciosamente, como ordenar a experiência, como nomear a realidade e como resistir à confusão mental produzida pela linguagem degradada.
Nesse sentido, conhecer bem a língua portuguesa não é apenas uma questão cultural, mas uma exigência moral e política. É pela língua que o indivíduo se torna capaz de responder por aquilo que diz, pensa e defende publicamente. A cidadania começa quando a palavra deixa de ser reflexo e passa a ser expressão consciente.
Fechando o arco argumentativo
Dominar a língua é dominar a própria presença no mundo simbólico. Sem esse domínio, não há alta cultura, não há juízo autônomo e não há cidadania efetiva. Como lembrava Fernando Pessoa, a pátria mais profunda não é um território físico, mas a língua que nos permite pensar, compreender e agir com responsabilidade no espaço público.