A habilidade mais valiosa do mundo, supera diplomas.

Em um país onde a palavra escrita pode abrir portas ou fechá-las de maneira abrupta, dominar a língua, oral e escrita, talvez seja a habilidade mais importante que uma pessoa pode desenvolver. O próprio ENEM confirma essa verdade de modo incontornável. A redação, sozinha, vale mil pontos. Mil pontos em um universo onde cada detalhe pesa. Esse valor não é apenas numérico. É simbólico. Ele expressa o que a vida já mostra há séculos: a língua é o instrumento que separa a confusão da clareza, o ruído da inteligência, a dispersão do pensamento organizado.

Saber falar bem e saber escrever bem garante muito mais que acesso ao ensino superior. Garante poder de articulação, capacidade de compreensão do mundo, autonomia intelectual e força de presença. É pelo domínio da língua que a pessoa consegue pensar com precisão, emocionar com sutileza, convencer com firmeza e transformar ideias dispersas em pensamento organizado.

A história literária brasileira confirma isso de maneira impressionante. Graciliano Ramos, Herberto Sales e Olavo de Carvalho mal concluíram o ginásio, mas escreviam com vigor, rigor, elegância e poder expressivo raros. Não foi o diploma que lhes deu a grandeza. Foi o domínio do código verbal. É por isso que a língua, diferentemente de tantos outros saberes formais, se deixa conquistar pela prática, pela leitura, pela escuta atenta, pela sensibilidade e pela disciplina intelectual.

William Zinsser e a arte de remover o excesso

No clássico On Writing Well, William Zinsser repetia uma lição que deveria estar gravada na mesa de todo escritor: escrever bem é um exercício contínuo de cortar, podar, limpar e esclarecer. Para ele, a escrita forte nasce da simplicidade e da clareza. Nada é mais valioso do que a capacidade de dizer o máximo com o mínimo. Zinsser lembra que o bom texto não se esconde atrás de adjetivos supérfluos, frases retorcidas ou erudição ornamental. Ele aparece quando o escritor sabe exatamente o que quer dizer e trabalha a página até que cada palavra cumpra seu papel.

Por isso Zinsser insistia: escrever é reescrever. Não há talento que dispense trabalho. Não há inspiração que substitua precisão. Não há ideia que sobreviva ao descuido verbal.

Schopenhauer: pensamento claro, escrita clara

No livro A Arte de Escrever, Schopenhauer afirma que a boa escrita não nasce da busca de efeitos estilísticos, mas sim da clareza de pensamento. Escrevemos mal porque pensamos mal. Escrevemos bem quando compreendemos profundamente o que desejamos transmitir. A escrita é a forma visível do pensamento.

Schopenhauer também advertia que quem escreve apenas com o propósito de impressionar o leitor fracassa inevitavelmente. A autenticidade intelectual exige que a escrita brote da compreensão real, e não da vaidade literária. Assim, dominar a língua é, antes de tudo, dominar a própria mente, organizar o próprio mundo interior, ordenar o caos das ideias.

Mattoso Câmara Jr. e a expressão como fundamento cultural

O grande linguista brasileiro Mattoso Câmara Jr., em Manual de Expressão Oral e Escrita, reforça algo essencial para a cultura brasileira. A língua não é apenas instrumento de comunicação, mas parte estruturante da inteligência. Ele ensinava que falar bem e escrever bem não é luxo. É necessidade para qualquer pessoa que deseje participar plenamente da vida social, profissional e cidadã.

Para Mattoso Câmara Jr., a expressão correta articula pensamento, cultura, tradição e racionalidade. Não é sobre rebuscamento, mas sobre exatidão. Ele ensina que a clareza é uma forma de civilidade e que aprender a escrever e a falar com precisão é aprender a pensar com precisão.

O domínio da língua como poder intelectual

Os grandes escritores autodidatas do Brasil mostraram que saber escrever é saber viver com lucidez dentro da própria mente. A língua nos permite moldar a realidade, interpretar o mundo, compreender o outro, formular argumentos, construir uma voz própria. Quem domina o código verbal conquista uma forma de liberdade que nenhum diploma garante.

Para os profissionais da escrita, como redatores, escritores e jornalistas, essa habilidade se torna ainda mais decisiva.A escrita constante fortalece a consciência estilística.A leitura aprimora o vocabulário. A revisão desenvolve discernimento. A oralidade refina a presença intelectual. Sem isso, não há cultura, não há pensamento, não há criação.

O essencial em poucas linhas


Saber falar e escrever bem é dominar a própria mente. É transformar ideias em pensamento estruturado, individualidade em voz, cultura em presença. A língua continua sendo a maior ferramenta de poder intelectual à disposição de qualquer pessoa, com ou sem diploma.

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