Meu encontro com Olavo de Carvalho.

Neste artigo brilhante , o professor Wagner de Souza compartilha seu encontro intelectual com o pensamento de Olavo de Carvalho.O texto é uma reprodução da palestra que ele proferiu no I Colóquio Olavo de Carvalho, realizado em Duque de Caxias,em 2023!

As circunstâncias  em que , pela primeira vez, ouvi falar do professor Olavo de Carvalho, à primeira vista, podem parecer meramente gratuitas e acidentais.Durante muitos anos, foi na conta de coisa gratuita e acidental que as tomei.Todavia, convidado a pronunciar esta palestra e a refletir sobre o itinerário de minha própria experiência em contato com a personalidade e a obra de nosso saudoso mestre,  não me posso impedir de ver naquelas circunstâncias a realização mesma daquilo que, mais tarde, na obra do professor, tornar-se-ia a imagem e o curso da vida intelectual, da ética da vocação.

Voltemos,porém, aos fins dos anos de 1990 e início dos anos de 2000.

Ás vésperas de completar meus trinta anos, os incontornáveis conflitos entre a minha vida mental, espiritual e minha própria existência nesta terra brasiliensis ganharam, enfim, contornos trágicos duma definitiva ruptura.Enfim, depois de cerca de vinte anos de escarmentos, desenganos e decepções, eu me libertava do infame dilema em que vive toda vocação intelectual no Brasil: dilema que admiravelmente examinado pelo professor Olavo de Carvalho no penetrante artigo Vocações e Equívocos, publicado em fevereiro de 2000, na revista Bravo! A partir daquele instante, e rigorosamente, eu decidira atender ao chamado de minha vocação.Não porque isto me consolava, ou porque me pudesse tornar admirável ou digno de consideração aos olhos de quem quer que fosse; muito menos porque isto me pudesse assegurar um salário ao fim do mês, ou que me pudesse favorecer na inglória tarefa de sobreviver neste mundo, não!….Eu atenderia àquele chamado ainda que isto me fizesse maldito aos olhos de todos, ou que me visse reduzido a mais abjeta das misérias.

Durante os vinte anos que precederam àquele instante, diante de ambas as alternativas, miséria e escárnio, retrocedi de minha vocação, sempre convidado a acomodar-me ora às exigências da sobrevivência, em meio à necessidades que, sucessivamente, como filho, como irmão, como marido ou como pai, devia satisfazer;ora às conveniências que, como pessoa, como indivíduo, devia atender se não pretendia melindrar a sensibilidade não propriamente de minha família, de   meus amigos, vizinhos, ou quem quer que seja, mas de todos os que, remota ou imediatamente, comigo partilhavam um único e indelével traço: ser brasileiro.

O chamado a que era convidado a atender, minha vocação, desde que dela me apercebi, me pôs em conflito frontal com tudo o que propriamente me tornava brasileiro.Em meu íntimo, e à minha volta, tudo quanto era brasileiro me convidava à degradação, à corrupção de minha personalidade e de meu espírito, contra a qual o apelo de minha vocação esforçava-se por proteger-se:

1º) Ao ressentido desprezo que eu via eriçar-se por toda parte contra a vida de estudos, ou sua miserável contrapartida, a estúpida cupidez dos pergaminhos, dos diplomas, com os quais todos desejavam entregar-se às degradantes alternativas do emprego e do desemprego, minha vocação opunha o puro amor pelo conhecimento, pela verdade, em nome da qual eu suportaria todas as privações, todas as humilhações, sem as quais um verdadeiro homem não pode jamais orgulhar-se de sê-lo.

2º) Ao sossegado culto, à tácita devoção, que por toda parte eu via render-se  à frivolidade, ao diletantismo, ao capricho, à leviana encenação de seriedade, sem a qual o brasileiro, em geral não suportaria um único instante da existência, minha vocação opunha a trágica circunspecção,  honrada severidade, com que devemos nos dirigir à realidade, e em nome da qual eu sofreria a ação combinada de todas as dúvidas, de todas as perplexidades, de todas as indecisões, de todos os deslumbramentos, sem os quais nenhum homem pode jamais orgulhar-se de sê-lo.

3º) Ao miserável cinismo, ao vergonhoso descaramento, à desaforada indecência, com que por toda parte eu via tripudiar-se da retidão do espírito, da integridade da consciência, da idoneidade do caráter, minha vocação opunha os deveres irretratáveis da honestidade, as exigências absolutas da honradez do mérito, da nobreza, em nome das quais eu toleraria todas as desconsiderações, todos os desfavores, todas as detrações, todos os desprezos, sem o que nenhum homem pode jamais orgulhar-se de sê-lo.

O chamado a que era intimado a responder, portanto, opunha, uma à outra, minha humanidade ao que nela havia de brasileiro. Não podia sacrificar a uma senão em detrimento da outra.Satisfazer integralmente todas as exigências da experiência vital de ser brasileiro expunha-me, primeiro, paulatina e reiteradamente, aos transes duma depravação de minha inteligência que ameaçava convertê-la na grotesca caricatura do discernimento que nós, brasileiros, usamos chamar “malandragem”, depois, sujeitava-me à lenta corrupção de minha vontade que, entre nós, outro nome não merece senão o de “vagabundagem” ou “vadiagem”, convertendo cada sincera aspiração, cada honesta ambição, num capricho fútil, numa extravagância leviana e lisonjeira,que nos dispensa de todo cuidado, de toda diligência, aplicação e compromisso duradouro conosco mesmos.

Foi neste contexto que fui apresentado ao inesquecível professor Olavo de Carvalho e à sua obra.

Na ocasião, fui introduzido no convívio com o futuro professor Márcio Barcellos.Tornamo-nos, por afinidades de temperamento, amigos.E, sob o patrocínio dessa amizade, um novo mundo se descortinou diante de meus olhos.Arredio e misanatropo,como eu mesmo o era, o professor Márcio Barcellos comigo compartilhava as angústias da tragédia vocacional que nos ameaçava a ambos, com uma diferença essencial: o horizonte de sua cultura incluia um prévio contato com a obra do professor Olavo de Carvalho.Não tardou para que esta me fosse recomendada naquele que se tornou o vestíbulo de meu acesso ao vasto edifício da erudição do professor Olavo: O JARDIM DAS AFLIÇÕES.

A HUMANIDADE BRASILEIRA

Foi naquele pequeno , mas precioso volume, que pela primeira vez em minha vida, vi e li, rigorosamente formuladas, todas as objeções de minha consciência aos compromissos e tergiversações que embaraçavam e ameaçavam esterilizar minha vocação.Foi ali que, depois de demolir a abstrusa cosmologia de Epicuro, de que então se abusava para alegar uma opção pelo progressismo por ocasião das Conferências do MASP, em 1990, segui atento e deslumbrado, o fio da lúcida argumentação do professor Olavo de Carvalho na tarefa de revelar, em seguida, as entranhas da ética de Epicuro, não menos abstrusa, nem menos fadada a servir de argumento ao delírio do progressismo desvairado dos intelectuais da USP. Foi ali que tive o prazer de ler estas linhas inesquecíveis:

“A parte ética da doutrina epicúrea, que Pessanha (José Américo Pessanha) apontou como a solução para todos os males da humanidade, e especialmente da humanidade brasileira, não é nem um pouco menos encrencada do que a sua cosmologia”

A expressão “humanidade brasileira”, eu já tinha encontrado mais de uma vez.Devotado ao estudo de Literatura, em especial a Literatura brasileira, deparara, a cada passo, senão com a expressão, tal e qual, ao menos com o seu objeto próprio: o brasileiro que vive em cada homem nascido nestas terras em que vivemos.

Era esta ‘humanidade brasileira” que  se deixava entrever desde a segunda fase de nosso introspectivo Machado de Assis; a que o infortunado Lima Barreto transplantara para as páginas amargas de seus livros; a que o impiedoso Monteiro Lobato tinha cruelmente desnudado em seu Urupês.

Era a que vibrava pelas páginas de A Esfinge, de Afrânio Peixoto, que nos revelava, já em 1911, valendo-se do neologismo posto em circulação por Jules de Gaultier, que o “bovarismo”, isto é, o sentimentalismo puramente verbal e condescendente era já a enfermidade nacional; era a que o velho Rui Barbosa, por ocasião de sua candidatura contra Epitácio Pessoa, em 1919, e a pretexto de por ela interceder, com precisão caracterizava:

“Eis o que eles tudo envidam por converter a humanidade brasileira, manada reciocinante (aos olhos deles, e sob o seu regime), manada raciocianante, que a natureza apascenta num território digno das maiores nações do mundo, e que a disciplina da nossa pecuária, aplicada ao homem, rebaixa ao nível das mais atrasadas gentes da terra” 

Essa mesma “humanidade brasileira” foi entrevista pelo já esquecido poeta Augusto Amado quando, em 1932, denunciava as frívolas extravagâncias de nossos intelectuais modernistas para os quais apenas um nacionalismo míope, um jacobinismo pedante e imbecil, constituíra o penhor de nossa vida mental.Leiamo-lo:

“O mundo, a natureza e a humanidade brasileira acharam, assim, a sua feliz e fiel forma de objetivação, o sentido justo e expressivo de seu subjetivismo espiritual e pensamento panteísta, na plástica e no talento musical do sapo cururú…”

É ainda a esta “humanidade brasileira” que se refere o saudoso Umberto Peregrino, o velho cronista da Revista Careta, quando a propósito de Carlos Drummond de Andrade, especialmente do tipo psíquico e humano que representava , dizia:

“Esse homem noturno, sem intimidade, tão distante e estranho, que anda há alguns anos melancolicamente exilado entre os outros homens, que ele não conhece, que falam uma língua diferente da sua; esse homem grave e frio, que nem sequer sabe olhar para os outros homens;esse homem terrivelmente  solitário- ilha perdida no mar inquieto e raso da humanidade brasileira, esse homem só tem afinal um ponto de ligação e contato com o mundo: a poesia.”

Alguns anos mais tarde o mesmo Umberto Peregrino serviu-se, ainda uma vez, da expressão “humanidade brasileira”, desta vez tomando-a por horizonte e limiar do nosso romance, da ficção entre nós praticada.E censurava aos nossos romancistas nos seguintes termos:

“O romance, no Brasil, tem sido sempre realizado como “seção longitudinal”.Romance, portanto, de superfície.Sem mistério e sem profundidade.Sem capacidade de penetração das “camadas geológicas” da humanidade brasileira, como aconteceria se fosse realizado em “seção perpendicular”

E para o contraste daqueles romancistas que se deixavam seduzir pelas “ondulações periféricas da vida exterior”, citava os nomes de Octávio de Faria, Osvaldo Alvez, Lúcio Cardoso, Cornélio Pena e Graciliano Ramos, isto é, aqueles em cuja obra se podia submergir perpendicularmente na “humanidade brasileira” para nela encontrar, despojando-a do que nela é brasileiro, o que verdadeiramente é humano.

E a fim de que nenhuma dúvida permaneça acerca da fisionomia desta “humanidade brasileira”, e de tudo quanto nela se encerra, e que cá e acolá  se deixava entrever na obra dos escritores de boa jaez, nada melhor se recomenda que as palavras do inesquecível João de Minas, quando em 1921, escreveu:

….assim como Monteiro Lobato definiu, em Jeca-tatu, a humanidade brasileira caipira, do sertão, Lima Barreto definiu, em Cló, a humanidade brasileira, culta, do 

Rio, das capitais, do debrum oceânico.”

NO JARDIM DAS AFLIÇÕES

Eu estava, portanto, muito familiarizado com a expressão “humanidade brasileira”.Primeiro, em mim mesmo, por senti-la como contradição fundamental de minha própria experiência como homem; depois, por incessantemente tê-la reencontrado em minha vida de estudos.

Quando com ela deparei, naquelas linhas de O JARDIM DAS AFLIÇOES, sentia já o dever irrevogável de dela livrar-me, no momento mesmo em que era objeto duma atenção renovada em nossos meios , letrados, onde agora era submetida ao regime moral do epicurismo, administrado como panacéia universal contra as tentações da indiferença liberal do mundo burguês.

Eu, porém, não possuía ainda a fórmula dessa emancipação, dessa alforria definitiva que, suprimindo em mim o brasileiro, me restituísse o homem que precisa e devia tornar-me;que,  levando-me de mim a mim mesmo, fosse o penhor dum direito que me fora sonegado desde que, por sucessivas renúncias, por miseráveis declinações e apostasias, exonerei-me do dever de constituir-me homem.

Esta fórmula, com ela deparei alguns parágrafos depois, seguindo o fio da brilhante exposição do professor Olavo de Carvalho, em seu Jardim das Aflições.

O problema com a ética de Epicuro, como o notou Carvalho,é que esta se assenta na premeditada revogação, na ostensiva erradicação, da diferença essencial que distingue, na ação humana, o que é subjetivo do que é objetivo, produzindo, no senso do real, um trágico enlace ou associação entre o que sentimos, pensamos e imaginamos, e aquilo que é sentido, pensado e imaginado, em suma, do próprio real.

O resultado óbvio deste disparate, em que a experiência íntima não mais se deixa corrigir e não mais se desenvolve pela ação recíproca entre a liberdade interior e s fronteiras da realidade, é a dissolução simultânea do real no moral e deste no primeiro, tornando impossível a tomada de consciência de si mesmo, como sujeito de nossas ações e intenções, por tornar impossível neste mesmo sujeito a tomada de consciência da própria realidade objetiva.

A experiência interior de qualquer realidade, portanto, pressupõe que nela se distinga entre o que é real e o que é interior, entre aquilo que percebo na realidade e aquilo que em mim mesmo penso e imagino, entre o dado exterior e ato interior.E se, por outro lado, não posso e não estou obrigado a responder pela presença do mundo diante de mim, estou, por outro lado, obrigado a responder pela realidade deste mesmo mundo em cada ato que me constitui, em que me realizo, e em que dele me diferencio.E sentencia o professor Olavo de Carvalho:

“Tomamos consciencia da realidade objetiva, diferenciando-a das nossas projeções subjetivas, exatamente pelos mesmos meios e na mesma medida em que tomamos consciência de nós mesmos como sujeitos livres, ativos, criadores de seus atos como de suas intenções”.

Em outras palavras, é somente conhecendo a mim mesmo como sujeito agente no transcurso de cada um de meus atos interiores e exteriores, incluindo, naturalmente, o dever de a mim mesmo reconhecer na totalidade deles, isto é, no arco de tempo que me leva do berço ao túmulo (é somente assim que posso fazer uma ideia adequada da própria realidade do mundo).E continua o nosso mestre Olavo:

A verdade é aceita assim como um valor moral, antes mesmo de se firmar como critério cognitivo.A admissão da verdade sobre si mesmo precede a admissão da verdade sobre as coisas.”

Quanto mais honesto e leal este testemunho interior de si para si, tanto maior nosso sentimento, nossa experiência da verdade.O rigor com que, de nós mesmo, exigirmos a confissão de nossa verdade nos exercita e capacita para, na mesma medida, elevarmo-nos a verdade das coisas mesmas.

Não obstante, nascida da própria autonomia cambiante do sujeito em face dum mundo que o submete, que lhe traça a fronteira da própria liberdade, a opção pela verdade de si mesmo jamais terá a força dum decreto:é preciso com ela incessantemente renovar um compromisso.E,neste ponto, arremata Carvalho:

…se a percepção da verdade nasce da liberdade, só pode conhecer a verdade quem esteja livre para negá-la”.

E mais adiante:

“A opção pela verdade deve ser refeita diariamente, entre as hesitações e dúvidas que constituem o preço da dignidade humana”

E eis a fórmula pela qual procurava.Ora, a fisionomia das dúvidas e hesitações que atordoava em mim a experiência da dignidade humana exigida por minha vocação, tanto quanto em qualquer homem, nascido onde quer que fosse, havia de guardar os traços e vincos das convenções de tempo,lugar e circunstâncias em que nasci, vivi e vivo.O brasileiro que sou disputa com o homem que devo tornar-me o troféu de minha dignidade propriamente humana.

Agora, ouvindo interiormente as sábias e prudentes reflexões do professor Olavo de Carvalho, finalmente compreendia que o brasileiro que sou, embora constituindo parte essencial de mim mesmo, em virtude, porém, das inumeráveis deformações que se galvanizar em sua formação e o deslocaram dos centros irradiantes da cultura e  da moral ocidental,esse brasileiro eram em verdade, um compromisso que eu não cessava de renovar com o fundo obscuro de dúvidas e hesitações acerca de meu valor enquanto homem, acerca de minha verdade.

À figura francamente imoral, piegas, condescendente, pedante, que se traçava desde o abismo de mim mesmo, eu usava dizer sim em prejuízo do homem que minha vocação deixava entrever e que era preciso armar tanto quanto preparar-lhe o caminho pela participação na liberdade com que me realizo, revertendo-me de mim para mim mesmo.Neste pormenor, recordemos ao professor Olavo que em seu A Ética da Baixeza, artigo publicado em O Globo, em junho de 2000, nos advertia:

Não existe ética, não existe moral onde não existe amor à verdade e não existe amor à verdade onde não existe a paciência de buscá-la”.

Conquistar, lenta, honesta e lealmente, a erdade de mim mesmo, por meio do esforço reiterado em distinguir naquilo que faço, penso e digo, o que tornei propriamente meu, por uma concessão consciente e deliberada a mim mesmo, como sujeito agente, daquilo que, não me sendo propriamente estranho, não constitui senão o resultado de certas desistências, de renúncias e covardes resignações- eis aí a fórmula de que necessitava e que, por ela esperando há décadas, recebi do professor Olavo naquelas páginas magistrais de o JARDIM DAS AFLIÇÕES.

Aquela fórmula, deu-ma o professor Olavo de Carvalho.Era a mim, que incumbia guardá-la e com ela renovar, todos os dias, um pacto de lealdade, de compromisso irrevogável, de tal modo que, a cada apelo do brasileiro que sou, correspondesse uma resposta do homem que devia tornar-me.A crônica deste compromisso, é claro, está ainda pejada de derrotas e humilhações.Mais duma vez por dia, o brasileiro que sou humilha e escarnece do homem que quero ser.E, todas as numerosas e miseráveis vitórias do primeiro decorrem dum único fator, o qual não escapou ao atilamento de nosso professor que lemos ainda em seu O JARDIM das AFLIÇÕES: 

“ O compromisso com a verdade,ainda que assumido de coração, jamais obriga o homem todo: continentes inteiros da alma, como a imaginação ou determinados sentimentos, podem continuar vagando à margem  de toda obrigação de veracidade, e atendendo apenas aos apetites imediatos.Há sempre muitos meios de fugir da verdade.”

É obvio que ser brasileiro, onde, devia, ao contrário, ser um homem, me concilia com tudo à minha volta, restaurando uma harmonia, u equilíbrio, que o homem que devo ser incessantemente ameaça destruir.Este homem, não obstante, jamais cheguei a sê-lo ,enquanto não admitir que o angustioso conflito comigo mesmo e com as circunstâncias que  daquele homem me afasta, constitui a própria condição de minha maturidade moral e intelectual.Este calvário, onde, um dia de cada vez, ora derramo o sangue do brasileiro que sou, ora o do homem que devo tornar-me, e onde deve o primeiro morrer para que viva o segundo – este calvário, todavia, é o único caminho aberto que a mim mesmo conduz.Nenhuma veracidade, nenhuma dignidade moral, nenhum compromisso com a verdade ( a minha e de tudo quanto há) é propriamente possível fora deste conflito onde, um pouco a cada instante, lembra e esquece-me o homem que preciso ser.Vive-se, portanto assim:olvidando e recordando o que somos; recordando e olvidando o que devemos ser.

A fórmula, pois, que recebi do professor Olavo de Carvalho, e que encontrei pelas páginas do seu O JARDIM das AFLIÇÕES, era antes um preceito que propriamente uma fórmula.Não podia, como numa prece ou rito, infundir-me o homem que devia ser ou suprimir o brasilero que sou.Era um convite a que devia consentir, a que devia atender, para tomar lugar no centro de mim mesmo como sujeito agente de minha verdade,  de minha dignidade propriamente humana.Era um apelo para tomar parte numa humanidade de que de  nenhum outro modo poderia participar sem realizar-me como ser moral, isto é, responsável por fazer de minha sinceridade para comigo mesmo o critério da própria verdade objetiva do mundo em que vivo.era uma convocação para que jamais me esquecesse os castigos e penas que decorrem da renúncia de ser homem, em benefício de ser brasileiro.

Esta convocação, recentemente, revestiu-se duma expressão mais definitiva.Tive a felicidade, em outubro de 2022, creio, de comparecer à brilhante aula magna do ilustríssimo professor Antonio Caponnetto, professor na Universidad Nacional de Buenos Aires,nas pequenas instalações do querido do Dom Bosco, no Rio de Janeiro.O professor Caponnetto, na ocasião,fez uma brilhante dissertação em torno da tese de sua importante obra “El Deber Cristiano de la Lucha”.E, para a minha alegria, serrviu-se o professor Caponetto duma fórmula retórica que , guardadas todas as proporções e mutatis mutandis, imediatamente fiz minha para acomodar o preceito, o convite, o apelo, a convocação que recebera de nosso estimado professor Olavo.

Para enfatizar os compromissos indeclináveis que unem a consciência cristã à luta contra as forças que ameaçam perdê-lo para as bem-aventuranças das promessas de Cristo, dizia o professor Caponnetto:

…El cristiano sabia e deberia seguir sabiendo que….”

E entrou a recordar tudo quanto é indispensável ao cristão para que jamais esmoreça no combate a que é chamado a comparecer a fim de jamais retroceder diante de seus inimigos: a carne, o mundo e o demônio.

Dado que o apelo de nosso professor Olavo de Carvalho, chamando-nos embora para análogo combate e confiando na mesma graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, se revestisse menos ostensivamente dum caráter religioso; e dado que este mesmo combate, em meu íntimo,se revestisse do aspecto particular da luta entre o brasileiro que sou e o homem que espero ser, a feliz expressão do professor Caponnetto deveria afetar uma nova forma e que, para mim, outra não podia ser senão esta:

O que todo homem brasileiro deve jamais esquecer, sob pena de tornar-se mais brasileiro e menos homem é que….”

Donde, para mim, minha vocação, o chamado a realizar-me, tanto quanto possível, como homem – no círculo delimitado pela convocação do professor Olavo de Carvalho- não encontrar outra expressão adequada senão nestes termos, e que quero  compartilhar com todos os que me acompanharam até aqui:

  • O que todo homem brasileiro deve jamais esquecer, sob pena de tornar-se mais brasileiro e menos homem, é que o amor pelo conhecimento, a devoção à verdade, sempre implicou, e não cessará jamais de implicar, no escárnio dos imbecis, no desprezo dos ineptos, no descaso dos incapazes, no cinismo dos nulos, no menoscabo dos impotentes, os quais, poluindo-se no pântano pátrido das considerações enganosas, dos títulos ilusórios, dos empregos aviltantes, e das fáceis afeições, chegam a encobrir para sempre, em si mesmos, e sob uma montanha de pretextos frívolos, os últimos vestígios de sua humanidade.
  • O que todo homem brasileiro deve jamais esquecer, sob pena de tornar-se mais brasileiro e menos homem, é que nenhuma seriedade, nenhuma sensatez, critério ou discernimento, no trato com a vida, pode ser obtido sem que calemos em nós mesmo os apelos do diletantismo exultante, do pedantismo parvo e risonho, da afetação faceira e folgazã,capaz de converter um homem na grotesca caricatura de si mesmo.
  • O que todo homem brasileiro deve jamais esquecer, sob pena de tornar-se mais brasileiro e menos homem, é que o preço pago pela depravada negligência, pela pervertida aversão que dispensamos a tudo quanto é honesto, honrado e meritório, é tornar-nos miseravelmente cínicos, demitindo-nos para sempre, do horizonte de esperanças em que ainda se pode, legitimamente, exigir o direito de existir.