José Sarney: a conquista do poder pela palavra

Perfil crítico de José Sarney na Academia Brasileira de Letras, analisando a relação entre literatura e poder político na trajetória do ex-presidente e escritor brasileiro.

Há escritores que buscam a política. E há políticos que recorrem à literatura como ornamento. Mas existem casos raros em que a palavra não é adorno nem instrumento secundário: ela é o próprio caminho de ascensão ao poder. É nesse ponto que a trajetória de José Sarney se torna emblemática. Sua vida pública não pode ser compreendida apenas pela sucessão de cargos ocupados. Ela precisa ser lida como a história de um homem que compreendeu cedo que, no Brasil, a linguagem é poder — e que dominar a linguagem é antecipar-se à política.

Sarney não surge como um técnico do Estado nem como um estrategista partidário típico. Ele emerge como intelectual regional que aprende a manejar símbolos antes de manejar estruturas administrativas. Sua entrada na política não se dá pela ruptura, mas pela retórica. Não pela insurgência, mas pela construção gradual de autoridade discursiva. É aqui que a relação entre literatura e poder político deixa de ser abstrata e se torna biográfica.

Sua formação revela um traço decisivo: a convivência precoce com o universo literário e jurídico, dois campos onde a palavra não é mero veículo, mas instrumento de estruturação do mundo. Como tantos escritores brasileiros do século XX, Sarney transita entre o jornalismo, a poesia e a vida pública. Esse trânsito não é acidental. Ele indica algo mais profundo: no Brasil, o espaço da política foi historicamente ocupado por homens que sabiam escrever — e que compreendiam o peso civilizacional da linguagem.

A obra literária de Sarney, muitas vezes relegada a segundo plano por causa de sua longa trajetória política, revela um escritor atento à memória, à identidade regional e à narrativa histórica. Seus romances e textos memorialísticos não são exercícios estéticos isolados; são construções de imaginário. Ao narrar o Maranhão, ao recuperar tradições, ao organizar símbolos regionais, ele participa da fundação simbólica de uma comunidade. Essa capacidade de narrar coletividades é, ao mesmo tempo, literária e política.

É preciso observar um ponto essencial: a literatura de Sarney não é experimental, nem vanguardista, nem iconoclasta. Ela é organizadora. Há nela um impulso de continuidade, de preservação e de legitimação histórica. Esse traço coincide com sua postura política: um homem de transição, de negociação, de estabilização institucional. A linguagem que ele cultiva é a linguagem da conciliação, da síntese e da permanência.

Quando assume a Presidência da República em 1985, após a morte de Tancredo Neves, Sarney ocupa um lugar historicamente delicado. O Brasil deixava para trás o regime militar e ingressava na chamada Nova República. O país precisava de estabilidade narrativa tanto quanto de estabilidade econômica. Não bastava governar; era preciso reconstruir o discurso nacional. A redemocratização exigia uma nova linguagem pública.

É nesse momento que a figura do escritor-presidente adquire sentido simbólico. Sarney não era apenas chefe de Estado. Ele era alguém treinado na organização do discurso. Seu governo pode ser analisado sob múltiplos aspectos econômicos e administrativos, mas há um ponto que interessa aqui: a presidência de um homem da palavra reforça a ideia de que a política brasileira continua dependente da retórica como força estruturante.

O ingresso de Sarney na Academia Brasileira de Letras não deve ser lido como mera consagração cultural. Ele representa a formalização de uma dupla autoridade: política e literária. Ao ocupar a Cadeira 38, sucedendo nomes ligados à tradição intelectual brasileira, Sarney integra-se a uma linhagem que transforma escritores em figuras institucionais. A Academia, nesse caso, não é cenário decorativo; é dispositivo de legitimação simbólica.

A linhagem da cadeira reforça esse aspecto. Cada ocupante anterior contribuiu para consolidar a ideia de que a ABL não é apenas uma confraria literária, mas um espaço de capital cultural acumulado. Ao assumir esse lugar, Sarney leva consigo o peso de sua trajetória política. A cadeira, então, passa a representar algo mais amplo: a fusão entre literatura e Estado.

Há uma pergunta inevitável: a literatura serviu à política ou a política serviu à literatura? A resposta não é simples. No caso de Sarney, parece haver reciprocidade. A formação literária molda sua visão de mundo, mas a experiência política também reorganiza sua escrita. Seus textos posteriores à presidência carregam a memória de quem atravessou crises institucionais. A narrativa pessoal mistura-se à narrativa nacional.

É importante notar que o Brasil possui tradição peculiar nesse ponto. Desde o Império, a figura do homem público letrado ocupa posição central. Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Machado de Assis — ainda que em graus distintos de envolvimento político — demonstram que a palavra sempre foi instrumento de poder no país. Sarney herda essa tradição e a atualiza no contexto da transição democrática.

Mas há também tensão. Em tempos de polarização ideológica, a figura de Sarney desperta críticas severas. Muitos o veem como símbolo de continuidade oligárquica. Outros o enxergam como articulador necessário da redemocratização. Essa divisão revela algo interessante: sua imagem pública é indissociável da disputa narrativa sobre o Brasil contemporâneo. Ele não é apenas personagem histórico; é signo em conflito.

Essa condição de signo é típica de figuras que ocupam simultaneamente o campo cultural e o campo político. A literatura lhes confere densidade simbólica; a política lhes dá visibilidade estrutural. O resultado é uma presença que ultrapassa a simples soma das funções exercidas. Sarney encarna, para o bem ou para o mal, a ideia de que o poder político brasileiro nunca se afastou completamente da autoridade da palavra.

Seu estilo discursivo confirma essa leitura. Mesmo em pronunciamentos oficiais, observa-se cuidado retórico, construção sintática elaborada, uso de referências históricas. A fala não é improviso; é composição. Esse traço diferencia o político técnico do político letrado. E diferencia também o gestor administrativo do homem que compreende o peso cultural do discurso.

No plano simbólico, a permanência de Sarney na vida pública por décadas reforça outra dimensão: a longevidade da influência discursiva. Ele atravessa regimes, governos e mudanças institucionais sem abandonar a centralidade da palavra. Sua trajetória demonstra que, no Brasil, quem domina a narrativa pode sobreviver às rupturas.

Isso não significa que literatura e política se confundam. Pelo contrário: a tensão entre ambas é constante. A literatura busca permanência estética; a política lida com contingências. No caso de Sarney, essa tensão se manifesta no equilíbrio entre memória e pragmatismo. Seus textos preservam tradição; sua atuação política negocia o presente.

O perfil de José Sarney, portanto, não pode ser reduzido a elogio nem a crítica sumária. Ele precisa ser lido como fenômeno estrutural. Ele simboliza uma tradição brasileira na qual a autoridade cultural antecede ou acompanha a autoridade política. Sua presença na ABL reforça essa tradição e a projeta para o imaginário contemporâneo.

Ao revisar sua trajetória sob o prisma da relação entre literatura e poder político, percebe-se que a palavra não foi simples instrumento. Foi estratégia de ascensão, ferramenta de consolidação e mecanismo de permanência. A literatura forneceu repertório; a política ofereceu palco. A combinação produziu figura singular na história nacional.

No contexto da série “Os 40 atuais imortais da ABL”, Sarney ocupa posição estratégica. Ele demonstra que a Academia não é apenas espaço de escritores isolados do mundo institucional. É também lugar onde o capital simbólico se articula com o poder real. Sua cadeira torna-se, assim, ponto de interseção entre dois campos que raramente se separam completamente no Brasil.

Examinar Sarney é examinar uma tradição maior. É reconhecer que, desde o século XIX, a elite dirigente brasileira atribui à palavra escrita papel estruturante na formação da ordem pública. Se isso produziu grandeza ou ambiguidades históricas, é debate aberto. Mas o fato permanece: no Brasil, a política nunca foi totalmente independente da retórica.

Sarney é talvez a expressão mais visível dessa continuidade no período recente. Escritor que governou; governante que escreve; acadêmico que encarna a fusão entre discurso e poder. Seu perfil revela que a palavra, quando disciplinada e estrategicamente aplicada, pode não apenas interpretar a realidade, mas organizá-la.

Fechando o arco argumentativo

José Sarney representa, na história intelectual brasileira, a prova concreta de que literatura e poder político não são esferas paralelas, mas vasos comunicantes. Sua trajetória demonstra que a conquista do poder pela palavra não é metáfora romântica, mas realidade estrutural do Brasil.

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